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Entenda as falhas do sistema antienchente de Porto Alegre

Proteção criada na década de 1970 tem 14 comportas e 23 bombas de sucção; parte dos equipamentos não funcionou por falta de manutenção ou não estava preparada para tamanho volume d’água

Depois da enchente histórica que destruiu Porto Alegre (RS) em 1941 e de outra em 1967, a cidade se preparou para proteger-se das inundações. Na década de 1970, foi inaugurado o sistema de contenção das cheias dos rios Guaíba e Gravataí. Mais de 5 décadas depois, a proteção se mostrou vulnerável e não funcionou como deveria.

A cota de inundação do Guaíba, ou seja, o nível em que o rio precisa atingir para alcançar a cidade, é de 3 metros. O sistema foi projetado para suportar que o nível das águas suba até 6 metros. No entanto, o rio invadiu a cidade bem antes, em 3 de maio, quando a cota chegou a 4,5 metros. No último domingo (5.mai), o maior nível foi registrado e o rio atingiu 5,35 metros.

A proteção consiste em uma gigantesca obra de engenharia que inclui um muro de concreto armado de 2,65 km de extensão, localizado na avenida Mauá, e 14 comportas de aço –metade delas ao longo do muro. Existem ainda 23 casas de bomba, que têm a função de bombear a água que poderia invadir a cidade pelos bueiros de volta para o rio.

O sistema também inclui 68 km de diques de terra, que são uma espécie de barreira. Desses, 24 km são elevações que separam o rio de vias importantes da cidade, como a rodovia BR-290 (conhecida como FreeWay), a avenida Castelo Branco e a avenida Beira Rio. Há outros 44 km de diques internos, às margens dos arroios que atravessam a cidade.

Veja como é o sistema na galeria de infográficos abaixo:

Toda essa estrutura foi insuficiente para proteger a capital gaúcha das chuvas fortes desse início de maio, provocadas por uma massa de ar polar que ficou presa sobre o Rio Grande do Sul. Nos primeiros dias, a estrutura física de diques e muros funcionou. No entanto, com a cheia recorde, problemas na rede de proteção ficaram evidentes.

O Poder360 apurou que a água driblou o sistema de 3 formas diferentes:

  • vazamento em comportas – água vazou pelas laterais e por debaixo das estruturas de aço. Uma delas colapsou;
  • falhas nas bombas – a maioria das estações de bombeamento não conseguiu se contrapor à força da água; as bombas ficaram submersas e precisaram ser desligadas por risco de choque elétrico;
  • extravasamento de diques – a água passou por cima dos barramentos de terra, como no dique do bairro Sarandi, onde há risco de a estrutura se romper.

A intensidade das chuvas em maio colocou o sistema à prova e mostrou pontos vulneráveis que poderiam e precisaram ser corrigidos, segundo explica o professor UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Fernando Dornelles, que é engenheiro civil e doutor em recursos hídricos e saneamento ambiental.

“O fato é que os pontos vulneráveis, que são as partes móveis (comportas e casas de bomba) não impediram a água de entrar. Isso foi uma falha. Saber exatamente por que elas falharam é uma investigação que precisa ser feita. Será que se sabia disso? Foi negligência? Quem operava não pensou na hipótese do Guaíba subir 4 metros e como que responderia?”, afirmou ao Poder360.

As comportas de aço do sistema foram fechadas quando a água do Guaíba começou a subir. Das 14 existentes, 3 apresentaram falhas mais graves como vazamentos. Uma delas, a de número 14, se rompeu. A força das águas também levou parte da rodovia que passa por cima da estrutura.

Veja o vídeo que mostra a água passando pela comporta (50s):

O sistema de comportas foi reformado e aprimorado em 2012, assim como o muro da avenida Mauá. Ganharam equipamentos que permitiriam a abertura e fechamento de forma mecanizada. De lá para cá, no entanto, a maioria dos motores foi roubada e os demais não tiveram a manutenção adequada e estão sem funcionar.

Atualmente, o fechamento precisa ser feito por retroescavadeiras, que empurram ou içam as comportas. Algumas delas podem ser movidas pelos próprios trabalhadores, com auxílio de cordas. No entanto, não há uma vedação completa entre as comportas e os muros.

O professor Dornelles diz que, em alguns casos, há brechas que chegam a ter 10 centímetros, por onde a água vaza. O problema é tamanho que a prefeitura, depois de fechar as comportas, colocou sacos de areia atrás e na frente dos portões de aço para auxiliar na vedação. A solução, porém, se provou ineficiente.

“As comportas não são 100% vedadas. Há frestas que permitem a entrada de água. E uma das provas é o uso dos sacos de areia. Essas estruturas deveriam ser autônomas e herméticas. Saco de areia só se usa para conter a água quando é emergencial e não tem outra opção. É uma alternativa para quando não existe um sistema de contenção”, afirma.

No caso das unidades de bombeamento, também houve falha. Das 23 bombas são responsáveis por escoar a água de volta para o rio, só 4 funcionaram efetivamente. 

As bombas drenam água de dentro da área protegida para fora através de galerias. O professor Dornelles diz que com a pressão nas galerias e o alto nível do rio, a água faz força para voltar por esses dutos. Essas galerias contam com locais para inspeção cujas tampas não contiveram a pressão e permitiram os vazamentos.

“A situação ficou similar a um barco furado que está entrando água por todos os lados e você tenta jogar a água para fora com canequinhas. Ia entrando mais água do que era possível tirar”, explicou Dornelles.

Isso provocou a inundação das estações. E com a água atingindo a parte elétrica das bombas, elas foram desligadas por risco de choque. Essa foi a principal causa do início dos alagamentos na capital: enquanto as comportas ainda conseguiam reter bem a água, as casas de bomba passaram a jorrar água do rio na cidade.

Prefeitura foi alertada de problemas no sistema

O Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), órgão do governo federal, havia emitido um alerta sobre o risco de um possível desastre no Rio Grande do Sul em 30 de abril, quase uma semana antes da 1ª morte pelas fortes chuvas no Estado. 

O órgão de monitoramento também havia divulgado uma nota técnica em 5 de maio. No documento, o Cemaden afirma que faltou “resiliência” da prefeitura de Porto Alegre quanto às estruturas hidráulicas, que são as comportas e bombas de sucção. Eis a íntegra da nota técnica (PDF – 131 kB).

O Cemaden afirmou que as estruturas móveis do sistema foram “subdimensionadas” ou que, para seu funcionamento, “não se consideraram que os volumes de chuvas”. Na nota técnica, o órgão diz ainda que “os desastres gerados por chuvas intensas são consequência de atividades humanas”.

O professor Fernando Dornelles afirma que o sistema de proteção contra as cheias de Porto Alegre não ficou obsoleto ou precisa ser descartado. Mas necessita, sim, ter suas falhas corrigidas e ser aprimorado.

“O sistema foi bem dimensionado lá atrás quando foi projetado. Agora é preciso executar um projeto de vedação para que essas comportas sejam autônomas, evitando vazamentos. E ter um cuidado com as casas de bomba, sabendo que aquela galeria de descarga vai trabalhar com uma pressão enorme durante as cheias, e garantir que tenham tampas de vedação espessas”, afirma.

O professor diz ainda que, para o futuro, será preciso pensar em um reforço e alteamento dos diques, elevando o nível. E verificar se os diques existentes de fato estão na cota correta para conter as águas em um nível de até 6 metros. Serão esforços necessários para evitar que tragédias como essa se repitam.

Veja imagens de cidades do gaúchas feitas pelo fotógrafo do Poder360, Sérgio Lima:

Desastre era previsível, mas faltaram investimentos

Investimentos poderiam ter sido feitos para tornar a estrutura mais resiliente. Segundo dados da própria Prefeitura de Porto Alegre, a gestão não investiu nenhum centavo no sistema antienchente em 2023. Em 2022, o valor destinado a melhorias das estruturas vinha caindo. 

Em 2021, foi investido R$ 1,8 milhão no sistema antienchente. O número caiu para R$ 141,9 mil em 2022. No último ano, o valor ficou zerado. Tudo isso quando especialistas já alertavam para a possibilidade de novos fenômenos como o de 1941 se repetirem por causa das mudanças climáticas.

Em maio de 2021, quando a histórica enchente completou 80 anos, o geógrafo climatologista Pedro Valente, pesquisador do Centro Polar e Climático da UFRGS, disse em entrevista ao Jornal do Comércio que anomalias climáticas como aquela poderiam voltar a acontecer.

Valente explicou na ocasião que para ocorrer um evento desse porte é necessária uma combinação de fatores para além do volume de chuvas, como também anomalias no regime de ventos. O risco seria maior justamente nos períodos de El Niño.

“O Rio Grande do Sul como um todo está numa região geográfica que sofre influência das forçantes tropicais e polares. E essa interação no oceano e na atmosfera é influenciada pelas mudanças climáticas. Antes, fortes chuvas que ocorriam a cada 5 anos, atualmente ocorrem a cada 2 e meio […] O intervalo de ocorrência desses eventos extremos tende a ser cada vez menor”, afirmou o especialista na época.

O que diz a Prefeitura de Porto Alegre

O Poder360 procurou a prefeitura de Porto Alegre por meio do Dmae (Departamento Municipal de Águas e Esgotos), que é o responsável pelo sistema contra as cheias. No entanto, não houve resposta até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.

Fonte: clique aqui.

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