Por Alberto de Avellar – Tem frases que não passam. Ficam ecoando na cabeça da gente como trilha sonora de filme clássico. Na entrevista desta semana do PodPensar, uma em especial me pegou de jeito. a que o vereador Carlos Neto se refere ao ex secretário Gabriel Ribeiro.
“Você fez tudo isso para agradar o chefe.”
Pronto. Foi o suficiente na mesma hora, como num passe de mágica, minha memória puxou direto para O Poderoso Chefão. Aquele clássico de Hollywood onde lealdade, poder e silêncio caminham lado a lado, e onde chamar alguém de “chefe” não é apenas respeito é pura submissão.
E aí, meus caros leitores inquietos, a ficção começou a se misturar perigosamente com a realidade tupiniquim.
Porque, cá entre nós, não foram poucos os que, ao longo dos anos, adotaram esse vocabulário quase devocional. “Chefe pra cá”, “chefe pra lá”lá,”uma espécie de liturgia política que mais parecia manual de obediência do que relação institucional.
A secretaria de comunicação Vânia Santana elevou o título a um nível quase espiritual.
Para defender o “chefe” com unhas, dentes e, segundo boletim policial, até com atitudes que ultrapassaram o campo das ideias. O caso do locutor Dário, por exemplo, virou símbolo de como o debate pode sair do microfone e descambar para o confronto, quando o “chefe” vira causa e qualquer crítica vira ofensa imperdoável.
E não para por aí. Nos corredores do poder, o roteiro parecia sempre o mesmo, a secretaria de Educação Heliene Mota “Sim, chefe.”“O senhor que manda, chefe.”
— “Esse cargo é do chefe.”
Uma espécie de coral afinado, ou desafinado, dependendo do ouvido de quem escuta.
E como todo bom enredo, surgem também os personagens secundários que ajudam a compor a trama: secretários reverentes, superintendentes alinhados e até aqueles que dão um toque mais do que afetivo à hierarquia — elevando o “chefe” à categoria de “chefinho”.
Ironia das ironias: enquanto o título inflava egos, as denúncias começaram a inflar processos.
Hoje, o “chefe” — ou melhor, o “poderoso chefão” versão municipal — já não aparece apenas nos bastidores políticos. Seu nome ecoa em investigações, relatórios, suspeitas e questionamentos que atravessam órgãos de controle e chegam às instâncias mais altas.
E aí vem a pergunta que não quer calar:
Até onde vai o poder de um “chefe” quando as instituições começam a falar mais alto?
Porque, diferente do cinema, aqui não tem trilha dramática protegendo ninguém, não tem roteiro garantido e muito menos final feliz escrito.
No mundo real, o título de “evangelista” não substitui prestação de contas.
A lealdade dos aliados não anula investigação.
E o silêncio… ah, o silêncio… esse costuma ser quebrado quando surgem provas.
No fim das contas, fica a reflexão do Bom Velhinho:
Quem vive de ser chamado de “chefe”, pode acabar tendo que responder como réu.
E diferente de O Poderoso Chefão, aqui não existe família que resolva tudo nos bastidores.
Porque quando a verdade resolve aparecer,
nem o mais poderoso dos chefões segura o roteiro.
E o povo?
Esse continua assistindo, mas agora, de olho aberto e esperando o próximo capítulo que pode ser ou não atrás das grades com direito a filme no canal de streaming.
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Créditos da imagem: Reprodução/Divulgação

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